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Maiara Alvarez: De onde tirar essa estrutura?

Maiara Alvarez: De onde tirar essa estrutura?

Dizem que títulos em formato de pergunta chamam mais atenção. Dizem é uma forma bastante genérica de admitir que pouco sei sobre a efetividade das coisas. Bom, de certas coisas. Quem diz? Chama a atenção de quem? Título de quê, onde? Que tipo de pergunta? Sobre esse não saber se debruça a gana que tenho de ler sempre algo que não foi lido. Que coça dentro da cabeça.

Engraçado. A coceira de ver o tempo como um bem simbólico já passou faz um tempo. Minha entrada no livro da Marli Silveira, Liberdade rasurada: narrativas de dor e liberdades foi, portanto, de adequação, e não de estranhamento. A discussão é teórica para embasar o trabalho realizado com mulheres em situação de aprisionamento. Me inquirir sobre essa situação tampouco é novidade, mas essa dúvida era nada mais que uma dúvida.

Marli, que é mestre em Filosofia e doutoranda em Educação, apresenta o trabalho que realiza sob o viés de uma pedagogia no e pelo poético, um trabalho com a finalidade de “[…] instigar o ser humano a se perceber como ser de possibilidades, inserido num contexto social e aberto ao aprendizado e à criação […]”.

É possível perceber que, pelo cru dos escritos, se cumpre o processo de instigar as mulheres. De me instigar, consequentemente. O tempo, bem simbólico, precioso por sua natureza de definidor da vida, capitalizado pelo atual sistema de convivência (ainda não sei se cabe este último termo), é a marca clichê dos dias de prisão. Aqui, entretanto, ele não é o protagonista. Ele é a ferramenta.

A socialização é proposta, antes de tudo, de si com si mesma, e, ao dividir o tempo e espaço com outras mulheres, surge um conceito não nomeado de sororidade que se revela nos poemas. Dicotômico que essa noção se dê, justamente, pelo contexto de aprisionamento. A sororidade é uma das liberdades.

Também há outra nota repetida: a libertação de se saber sem caminhos traçados, mas com a possibilidade de seguir. Outra liberdade, a do caminhar. Há ainda, nas palavras, uma sensação de que as grades da prisão encarceram o corpo, mas não o sentimento. É verbal o sentir-se livre na prisão. A prisão como apenas a continuação, uma fase seguinte, de um sistema que limita e oprime muito antes de encarcerar. E a liberdade interna como algo que consegue fugir dessas grades.

Finalmente, li também o sentir-se parte criadora de seu entorno. A liberdade que se revela poética no doar-se e se eterniza no poema.

Sombra
[Tamires]
Eu era menos que sombra,
menos que dores e gritos.
Seu amor encheu-me de coragem,
e agora já não estou só,
ando clareando caminhos
e aliviando outros peitos e gemidos.


A coceira que surgiu? É incrível que quem mais esteja fazendo pela ressocialização de pessoas em estado de aprisionamento sejam justamente as pessoas que, no mínimo, discutem a necessidade, eficiência e justiça do sistema prisional, quando não as que já lutam justamente pela sua extinção.

Desejo, profunda e sinceramente, que neste ano você leia, leia o mundo e leia livros que lhe apresentem um mínimo de desenvolvimento e muita qualidade. Algo que instigue a se perceber como ser de possibilidades…

Marli Silveira é natural de Santa Cruz do Sul, onde foi coordenadora de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura municipal. Também foi secretária da Cultura da cidade vizinha de Vera Cruz. Recebeu prêmios como o VIVALEITURA 2016, uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) e do Ministério da Educação (MEC), com a parceria da Organização dos Estados Ibero-americanos para Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). Autora com variadas publicações, Liberdade rasurada é seu segundo título pela BesouroBox.

 

FONTE: https://literaturars.com.br/2020/01/07/maiara-alvarez-de-onde-tirar-essa-estrutura/

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